quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Morte de um amigo





Gloria Moribunda

É uma visão medonha uma caveira?

Não tremas de pavor, ergue-a do lodo.

Foi a cabeça ardente de um poeta,

Outrora à sombra dos cabelos loiros,

Quando o reflexo do viver fogoso

Ali dentro animava o pensamento,

Esta fronte era bela. Aqui nas faces

Formosa palidez cobria o rosto...

Nessas órbitas—ocas, denegridas! —

Como era puro seu olhar sombrio!


Agora tudo é cinza. Resta apenas

A caveira que a alma em si guardava,

Como a concha no mar encerra a pérola,

Como a caçoula a mirra incandescente.


Tu outrora talvez desses lhe um beijo;

Por que repugnas levantá-la agora?

Olha-a comigo! Que espaçosa fronte!

Quanta vida ali dentro fermentava,

Como a seiva nos ramos do arvoredo!

E a sede em fogo das idéias vivas

Onde está? onde foi? Essa alma errante

Que um dia no viver passou cantando,

Como canta na treva um vagabundo,

Perdeu se acaso no sombrio vento,

Como noturna lâmpada, apagou-se?

E a centelha da vida, o eletrismo

Que as fibras tremulantes agitava

Morreu para animar futuras vidas?


Sorris? eu sou um louco. As utopias,

Os sonhos da ciência nada valem,

A vida é um escárnio sem sentido,

Comédia infame que ensangüenta o lodo.

Há talvez um segredo que ela esconde

Mas esse a morte o sabe e o não revela,

Os túmulos são mudos como o vácuo.


Desde a primeira dor sobre um cadáver,

Quando a primeira mãe entre soluços

Do filho morto os membros apertava

Ao ofegante seio, o peito humano

Caiu tremendo interrogando o túmulo

E a terra sepulcral não respondia.


Levanta-me do chão essa caveira!

Vou cantar-te uma página da vida

De uma alma que penou, e já descansa.

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